Ei, sabe aquele desenho animado que você amava quando criança? ele sabia mais sobre você do que você imagina!
Mas espere ai, antes de continuar rolando o feed, eu preciso te fazer uma pergunta séria: qual foi o último desenho animado que te ensinou algo de verdade? Pode ser da infância, pode ser de ontem, pensa aí...
Porque tem vários pesquisadores acadêmicos que passaram anos debruçados exatamente sobre essa pergunta e descobriu coisas que vão te fazer ver a TV, o tablet e a Netflix com outros olhos.
Castro e Soares (2025) entrevistaram professores sobre infância, televisão e formação pessoal e descobriram uma coisa deliciosa: vários deles associam escolhas profissionais e modos de enxergar o mundo aos desenhos que assistiam quando pequenos.
Uma professora contou que o Castelo Rá-Tim-Bum teve impacto direto na decisão dela de cursar pedagogia. Outro professor chamou a televisão de “janela do mundo” e disse que a Xuxa ocupava um lugar quase de professora dentro de casa, especialmente pela ausência dos pais no cotidiano.
Mas aí tem um ponto, esses mesmos professores, quando chegaram na faculdade, não encontraram quase nenhum preparo para usar desenhos animados em sala de aula. Como se tudo aquilo que os formou enquanto pessoas não tivesse nenhum valor pedagógico oficial.
E olha que a pesquisa confirma o que a intuição já dizia: tem muito potencial sendo desperdiçado.
E aí entra Ribeiro e Lopes (2025), que decidiram analisar episódio por episódio de Cyberchase, aquele desenho da TV Cultura onde três crianças vivem fugindo de um vilão digital chamado Hacker. Resultado da pesquisa? O desenho é basicamente uma aula de matemática escondida dentro de uma aventura espacial.
Frações, geometria, probabilidade, proporção… tudo aparece ali no meio do caos tecnológico do Ciberespaço. E o mais interessante: funciona porque não parece aula. A criança aprende tentando resolver problemas junto com os personagens, não decorando fórmula.
Mas calma aí, porque obviamente o capitalismo também entrou no roteiro.
Andrade e Porto (2025) foram analisar Ada Batista, Cientista, aquele desenho fofíssimo da Netflix sobre uma menina negra apaixonada por ciência, e perceberam que a coisa é mais complexa do que parece.
Sim, o desenho realmente incentiva pensamento científico.
Sim, trabalha investigação, hipótese, erro, descoberta e aprendizagem baseada em projetos.
Sim, pode aproximar crianças da ciência de um jeito muito mais interessante do que muita escola consegue fazer.
Só que também existe outra camada: o desenho faz parte de uma engrenagem comercial gigantesca. Produzido pela empresa dos Obama e distribuído pela Netflix, ele também ajuda a espalhar modelos educacionais norte-americanos pelo mundo enquanto a plataforma coleta dados dos usuários, inclusive crianças, para transformar comportamento em lucro.
No fim, as três pesquisas chegam numa conclusão meio desconfortável: desenho animado nunca foi neutro.
Nunca foi “só entretenimento”. Eles ensinaram gerações inteiras a pensar, sentir, imaginar profissões, entender o mundo e até gostar de matemática. Mas também sempre existiu alguém escrevendo o roteiro, financiando a produção e decidindo quais valores iam circular ali.
Porque no fundo a pergunta nunca foi “o desenho ensina?”
A pergunta é: quem está educando junto com ele do outro lado da tela?
E quem sou eu? esse segredo eu não conto pra ninguém. vocês sabem que me adoram... xoxo ;*














